sexta-feira, 26 de abril de 2019

A insustentável leveza do ser

"Logo no início do Génesis está escrito que Deus criou o homem para que ele reinasse sobre os pássaros, os peixes e o gado. É claro que o Génesis é obra de um homem e não de um cavalo. Não é certo que Deus tenha verdadeiramente querido que o homem reinasse sobre as outras criaturas. É mais provável que o homem tenha inventado Deus para santificar o poder que usurpou à vaca e ao cavalo. Sim, o direito de matar um veado ou uma vaca é a única coisa acerca da qual a humanidade inteira está fraternalmente de acordo, mesmo durante as guerras mais sangrentas.
 Esse direito parece-nos natural porque somos nós quem está no topo da hierarquia. Mas bastaria que um terceiro se imiscuísse no jogo, por exemplo, um visitante vindo de outro planeta cujo Deus tivesse dito «Tu reinarás sobre as criaturas de todas as outras estrelas» e toda a evidência do Génesis seria imediatamente posta em questão. O homem atrelado a um tanque por um marciano, eventualmente grelhado no espeto por um habitante da Via Láctea, talvez se lembrasse então das costeletas de vitela que costumava cortar no prato e apresentasse (demasiado tarde) as suas desculpas à vaca."

Milan Kundera

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

O Movimento

25.05.2018

Dizem que demora 365/6 dias para que a Terra dê uma volta ao Sol. Ao mesmo tempo que vai girando em torno do seu próprio eixo. Um eixo que ninguém vê, ninguém viu e provavelmente nunca ninguém verá. Existem muitos movimentos dentro do movimento. Isso poderá ser um enigma ou um simples facto. Sempre que tento escrever coisas simples a profundidade salta para o meu colo. Não consigo não a embalar ao ritmo de uma melodia. Escolho sempre melodias suaves porque já existe falta de suavidade suficiente na vida. A vida é um bicho curioso, aliás vários bichos curiosos. Busco incessantemente conhecer todos esses bichinhos. Em vão. Não cabe dentro de nós todo o conhecimento. Entre tudo o que poderíamos saber o que realmente me interessa é: Saber apreciar o silêncio, conseguir sentir amor sempre que toco numa árvore, saber escutar o vento, entender a sabedoria da água e do fogo. O tempo não existe para a água e para o fogo. Que bom. Talvez seja devido à noção do tempo que nos perdemos no movimento da vida. Temos pressa porque sabemos que há um fim. Temos medo do fim. A ausência da nossa existência é um buraco negro do qual todos fugimos a sete pés. Fugas. Não queria escrever nada disto, a minha mão tem vontade própria. Assim como ninguém perguntou à Terra se queria continuar a girar à volta do Sol. A lei da atracção. Somos mais do que isso? 

AR

domingo, 13 de janeiro de 2019

Lágrimas

Há muita coisa que ainda não entendi na humanidade. Muitas perguntas sem resposta. Uma delas é porque é que a maior parte de nós não lida bem com o choro? Chorar à frente de outras pessoas parece o fim do mundo, colocam-nos uma etiqueta na testa com adjectivos como: frágil, fraco/a, criança, dependente, entre outros. Todos eles para diminuir as pessoas, todos eles dizendo que chorar não é aceitável dentro do mundo dos adultos.
Tudo isto é ridículo.
Saber que não estou confortável em chorar nem à frente de amigos que conheço há anos deixa-me com vontade de chorar.
Por vezes sinto que mais do que alguém para falar ou alguém para rir precisava de alguém com quem pudesse chorar. Que não fosse estranho ou desconfortável. Que fosse normal como respirar, como dizer uma piada.
Todos nós precisamos de chorar por um pormenor ou por algo mais complexo. Mas quem são as pessoas que sabem oferecer um ombro sem julgar, sem exagerar negativamente no significado do acto?
Não deveria ser tão difícil e no entanto se alguém chora à minha frente congelo, não sei o que fazer nem dizer. A sociedade não nos ensina nem a lidar com os nossos sentimentos e emoções nem a lidar com a dos outros. Parece me que andamos todos cegos, surdos e mudos. Há dias em que a humanidade foge de mim e outros em que me sinto cheio dela, em qualquer dos casos sinto o caos à minha volta. Tantos humanos que já se esqueceram de ser...e talvez eu também já o tenha esquecido.
Hoje está a ser um dia de lágrimas. Mas poucas porque aqui não é confortável chorar. Nem tenho um ombro que me diga: "Estou aqui para ti, vou chorar contigo, vamos chorar até tudo nos doer, até termos libertado todas as lágrimas, até o nosso nariz parecer uma batata, até nos apetecer rir novamente, até..."

AR

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

Quero voltar aos países onde fui feliz. Quero ficar parada a fazer amigos. (?) Quero conhecer países novos.
 Quero fingir que sou normal. Quero continuar a ter este trabalho. Quero ter um trabalho que me permita ter hobbies. Quero ter tempo para escrever. Não quero parar de viajar. Quero amor. Não quero esperar por ele sentada. Quero voltar lá. Quero uma casa. Mas não quero sentir me isolada. Quero ler mais. Quero voltar ao ginásio. Quero mais uma viagem. Estou cansada da viagem. Estou cansada de estar quieta. Quero pessoas à volta. Já não posso com as suas vozes e com a sua não-companhia. Quero ser feliz. Mas não consigo ver que caminho tenho de escolher para sê-lo.

Fucked up me. Always here. When I am not there.

AR

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Decisões

Ser adulto é uma merda e no entanto é tudo aquilo que sempre quis. 
Sempre quis ter a liberdade que tenho agora. E durante uns anos fui feliz (?) ou pelo menos mais feliz que agora. 
Esta cena de ser adulto à séria e ter que tomar decisões é uma merda.
Tenho ideia que não cresci, que fiquei ali na adolescência a contorcer-me com todos os cantos bicudos da vida, a contorcer-me com todas as tragédias da humanidade, a contorcer-me com todas as mudanças que um novo dia trás, a contorcer-me também com todas as rotinas, em suma a contorcer-me a cada respiração. 
Fazia sentido na adolescência, é disso que é feita a adolescência, todas essas dúvidas, todos esses medos, todas as lamurias, furores, gritos de revolta, lágrimas... Agora não, agora já não pode fazer sentido, agora devia ser um caminho para a calma, para a certeza, para a estabilidade, para o pranto, para a os pés à lareira, para... Nunca quis nada dessa treta. Nem quero exactamente isso agora. 
Tenho ideia que a sociedade obriga-nos a escolher um caminho ranhoso e não existe nenhum caminho à minha medida. Não quero nada do que a sociedade me propõe. Pego nos papéis, rasgo-os aos bocadinhos, espalho-os pelo ar, dou um berro e vou a correr dar um mergulho.Olho à minha volta e estou sozinha no mar. Outra vez.
Portanto o que faria sentido seria ter juízo, pegar nos papéis, assinar alguma coisa e ficar quietinha. Não sei fazer isso, não sei como. A palavra quieta durante mais de uns meses dá-me comichão.
Decisões... Até quando consigo eu fugir delas sem me lixar à séria? E não será que já me lixei mais que uma vez? Quantas vezes já boicotei a minha própria felicidade? E até quando o continuarei a fazer?
Deveria ser a única com essas respostas, deveria querer ser feliz. Mas começo a duvidar da minha alma, começo a duvidar de toda a inteligência que parecia possuir, começo a duvidar da minha estrutura, do meu espírito, começo a duvidar das ligações dos meus neurónios, começo a duvidar da vida.
E posso não saber muita coisa mas sei que duvidar da vida é o meu ponto mais baixo e mais cego de sempre.

AR

domingo, 30 de setembro de 2018

Há muito tempo que estou em silêncio. Sempre que paro para pensar apetece-me chorar. Tenho ideia que estou a fazer algo errado. Tenho ideia que dou passos sem saber porque os dou. Porém quando não penso a vida é bela. Os sorrisos das pessoas fazem-me sorrir, as suas gargalhadas deixam-me feliz, os seus olhares e as suas palavras de apreço fazem-me continuar. No fim a vida é realmente bela e há tanto ainda para conhecer. Sei que o melhor é em olhar em frente e apreciar cada momento como o milagre que ele é.
Quando olho à minha volta e vejo tanto, sinto tanto, sou feliz. A viajar sou feliz. Me encho de cores e de vivências. Esqueço-me de mim, não me ouço, não me vejo, não me sinto. O mundo é tão belo, só me quero perder nele todos os dias, para sempre.
AR

quarta-feira, 20 de junho de 2018

A primeira hora em que o filho do sol brincou com chumbinhos

"Meu querido, as árvores falam. Os tigres correm olimpíadas em pistas muito mais incríveis do que aquelas feitas de cimento laranja. Usain Bolt vezes cem, o sorriso de Usain Bolt vezes mil. A matemática não é difícil se você comparar tudo ao aparecimento de um cardume. Alguns frutos nascem do chão, outros caem dos ramos. É preciso estar atento. Certas canções despertam em nós a vontade de uma história que já aconteceu mas que não vai acontecer mais. Algumas histórias têm a duração exata de uma música rock, outras se dividem em cantos. No intervalo dá para comprar pipocas. Poucas pessoas contaram as riscas de uma zebra, mas todos os que o fizeram regressaram diferentes. O alvo de um humano está no terceiro olho e um dia alguém vai explicar para você como o afagar e onde fica. Nunca aponte ao terceiro olho, com aquilo é só cuidados. Algumas vezes vão te empurrar e você vai empurrar de volta, provavelmente vai até querer pegar uma pedra para jogar no peito de quem te feriu. Isso não está certo, mas é humano. Quase tudo o que é humano é justo, não deixe que ninguém te diga o contrário - só não vale enfiar o dedo no tal olho porque isso é igual a matar. A morte é o contrário de justiça. Os peixes respiram debaixo de água e se você mergulhar entre as rochas e se concentrar muito também vai conseguir. Ah é: os peixes brilham mais que as chamas, e alguns deles vão morar dentro de seus pulmões. Segure-se. Faça por polir seu riso, principalmente ao entardecer. Afine diariamente a pontaria e reze para que nunca seja necessário o disparo. Não existe proteção melhor do que a consciência de que podemos decidir atirar ao lado. Sim, daqui a muitos anos você vai conseguir acertar direitinho nessa lata de coca-cola que a gente suspendeu no sobreiro. Só acho que não vai querer. Também vai saber por que razão é melhor segurar uma arma descalço - é que é na terra que está a consciência do mundo, e é preciso escutar o seu ruído para agir em verdade. Saiba também, querido, que muitas vezes a sombra de um desenho é bem mais bonita do que o desenho que está à vista. É preciso estar atento, e descobrir o bichinho que se mexe debaixo da folhagem. Não o mate: se cubra de flores e entre para brincar com ele."

Texto escrito em Português do Brasil e Português de Portugal misturado.
Autora: Matilde Campilho
Livro: Jóquei