domingo, 1 de maio de 2016

Aceitar o nada

O que é que é real? O que é que é verdadeiro? Quanto tempo é que dura uma verdade? Para sempre é até quando? Quanto é que é muito? Quanto é que é pouco? Disse agora uma verdade, continuará a ser verdade amanhã? E depois de amanhã? E para o ano? E daqui a 20 anos? E quando estiver às portas da morte? Usaste o Para sempre, querias dizer até um dia, até acabar, até deixar de fazer sentido. O que é o sentido? De onde é que ele vem e para onde é que vai? É isso que nos leva à felicidade? O que é a felicidade? Como encontrá-la? Como saber dizer-lhe Adeus? O que significa ser feliz? O que é o significado? Porquê é que o significado desaparece? Porquê é que tudo desaparece?
A realidade deixa de ser real. A verdade passa a ser mentira. O Para sempre não existe. O sentido é efémero. A felicidade é passageira.
 Continuamos, mesmo assim, à procura do significado de tudo isto. Porém, o significado não tem significado e andamos à procura de coisa nenhuma.

quinta-feira, 17 de março de 2016

Talvez não

E então dizem-nos que o objectivo da vida é andarmos sempre aos pares. E escolher um para o resto da vida. Dizem-nos para investirmos apenas numa pessoa, para darmos tudo. Dizem-nos também que é natural um homem trair mas uma mulher o fazer é uma vergonha. Dizem-nos que já está tudo bem, que já temos todos os mesmos direitos, que vivemos como iguais. Dizem-nos que devemos estudar se queremos ser alguém na vida. Dizem-nos que devemos ser alguém na vida. O que é ser alguém? Dizem-nos que temos de ter o último Iphone mas ninguém nos conta como é que ele foi feito. Dizem-nos que temos de ter uma conta no Facebook, no Instagram, no Twitter, no cu de judas e na terra santa. Dizem-nos que temos de ser honestos mas depois quando o somos mandam-nos calar. Dizem-nos que ler é bom e dão-nos o Correio da manhã para a mão. Dizem-nos que a moda é vestir uma camisa às riscas e a cor verde. Dizem-nos que sem dinheiro não somos nada. Dizem-nos que devemos ajudar-nos uns aos outros mas deixamos os refugiados à porta da Europa. Dizem-nos que devemos comer isto e aquilo. Que devemos dormir x de horas. Dizem-nos que se tivermos doentes devemos tomar este e aquele medicamento. Dizem-nos que devemos casar e ter filhos. Que as mulheres devem ter filhos, e aturar os homens, e criar humanos como deve ser e morrer com orgulho nos humanos que criaram. Devemos ser assim e assado, fazer isto e aquilo, morrer virados para o céu se não, não somos abençoados. Dizem-nos que existe um ser superior. E depois dizem-nos que somos um ser superior. Dizem-nos para rezar mas os extra-terrestres já estão fartos de nos ouvir. Dizem-nos que existe vida para além da morte. (Nem a morte pode existir em paz, sem que digam que ela não existe.) Dizem-nos que tem de haver um funeral e temos de pagar por ele. Temos de pagar para ir embora, para desaparecer. Até o tempo que não existe está manchado por aquilo que nos dizem que temos de fazer.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

A última geração

Saudades da infância dos anos 90. Parece que fomos a última geração a viver uma realidade real, entre o passado cheio de momentos importantes e o que viria a ser um futuro evoluído mas menos iluminado. Vivemos numa boa era. Saberemos passar essa felicidade e essa luz aos nossos filhos? Mesmo com este presente e futuro que se emprega em nós todos os dias um bocadinho mais e nos faz esquecer como era simples e belo viver nos anos 90, saberemos explicar-lhes o que foi e saberemos ensinar-lhes os valores que nos fizeram ser a geração que somos? Conseguiremos não nos esquecer de quem fomos? De quem somos? Do que nos tornou os seres de hoje, com uma revolta pelo passado que nunca presenciamos e ao mesmo tempo com um sossego de um futuro que vinha com todas as respostas. O nosso tempo é um tempo que passou rápido. Connosco o mundo cresceu, os anteriores cresceram devagar e os a seguir cresceram rápido demais mas nós não. Nós crescemos com o mundo, evoluímos com o mundo, o tempo passou por nós da mesma maneira que nós passámos pelo tempo. A única geração que fez sentido no meio desta embrulhada toda. Agora olha-se para trás e não sabemos se temos pena de nunca ter vivido o passado passado a preto e branco e cheio de revoltas e conquistas ou se temos pena pelo futuro que vemos à nossa frente: uma sociedade que não teve tempo para crescer e cresceu mesmo assim, à pressa e já sem saber ler nem contar. Já não há tempo para isso…

domingo, 3 de janeiro de 2016

Pensa outra vez, sente a diferença

O significado da palavra Gostar na nossa sociedade é, por vezes, perturbador. Não sei se quero continuar com isto, pois não sei se não existirá uma melhor maneira de amar, de viver o amor.
Talvez coloquemos nesta pequena palavra um peso demasiado grande, um peso que ela nunca pediu. Talvez seja hora de respirar fundo e de amar mais amando menos. Eu não sou tua, tu não és meu. Não somos objectos e nascemos livres. Já viste que sorte? Porque queremos todos ser aprisionados pelo amor? Para mais tarde sermos aprisionados pela dor?
 
Vivemos de prisão em prisão sem sabermos sequer que estamos enjaulados. O nosso pensamento é sempre igual sem sequer ficarmos preocupados com isso. Passamos dias, semanas, meses sem aprender nada de novo, repetindo o que já sabemos: os mesmos gestos, as mesmas expressões, o mesmo raciocínio over and over again. Como se fossemos robots. Mas eu acho, acho, que ainda não somos robots.
Devíamos reestruturar tudo. Virar tudo ao contrário e pensar outra vez. Toda a minha vida pensei isto, porquê?, Quero continuar a pensar isto ou quero pensar de outra maneira?, Toda a minha vida fiz isto desta maneira porquê?, Não quero eu experimentar outra forma?
Há pessoas irritantes que fazem perguntas a toda a hora, Sabes porquê é que aquela rocha está ali?, O Horizonte está com umas cores incríveis devido ao quê?, O teu nome veio de onde?, És feliz?, Quem és tu?, Quem sou eu?, O universo é mesmo infinito?
Porém, é essa curiosidade que as faz irem mais longe, saberem mais, serem mais e viverem mais. O que é que isto tem a ver com o amor? É simples. Se não pensarmos de outra maneira, não conseguimos sentir de outra maneira. E viveremos para sempre presos num conceito de amor que não foi escolhido por nós foi-nos imposto. E nós nem nos apercebemos.

Tudo isto para quê? perguntam vocês. É uma boa pergunta.
Tudo isto para sublinhar o quanto ficamos presos no que achamos ser uma prioridade quando não o é. O amor é apenas um extra, algo que complementa a vida e não a vida em si. O amor não deveria ser nunca a vida em si. A vida é muito mais do que isso. O amor é um conceito gasto que há muito tempo que devia ter mudado de definição.
Amar devia ser leve, precioso e limpo. Olhamos para a história da raça humana e já nem sabemos quando é que essa definição fez realmente sentido. Porém, sei que em partes deste mundo ainda faz, sempre fez. Aos poucos, todos nós mudamos, aos poucos alguns apercebem-se de tudo isto que estou a escrever, aos poucos vamos aprendendo a amar outra vez.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Desconhecidos

É interessante como passamos uma vida inteira a investir em relações com pessoas que consideramos que sabem mais sobre nós que todos os outros, que nos entendem como mais ninguém entende. Anos de amizades que nos deixam ir sendo felizes por não estar completamente sozinhos neste mundo que tem tanta gente mas tão poucas pessoas de verdade.
É preciso conhecermos mais pessoas, viajarmos, explorarmos, sem medos, sem receios, para descobrirmos algo que nos deixa sempre virados do avesso.
 Para descobrirmos que existem desconhecidos que em 5 minutos descobrem mais sobre nós do que alguns amigos de anos, descobrem quem realmente somos, de que matéria somos feitos.
 Ou então aparecem-nos na vida pessoas com quem é mais leve estar, pessoas com quem nos sentimos bem em silêncio. Olhamos para as pessoas que conhecemos há anos e sentimos que estar em silêncio não faz sentido, mas faz, faz muito.
Há desconhecidos que nos ensinam a viver de novo. Existem desconhecidos que nos ensinam a respirar de novo, ensinam-nos tantas vezes coisas sobre nós próprios que nem nós sabíamos nem nunca ninguém nos disse.

 Apesar de ser aborrecido conhecer tantas pessoas vazias, supérfluas,  sem muito interesse, contínuo a ser uma pessoa de pessoas porque adoro descobrir as pérolas no meio do oceano, os trevos de quatro folhas no meio do jardim, os arco-íris algures no céu...
Os momentos em que um desconhecido percebe realmente quem sou faz-me ter um bocadinho mais de fé em encontrar mais pessoas assim. Pessoas que ouvem, sentem e vêem como deve ser, não andam aqui a fingir, comunicam a sério com todos os seus sentidos. E não se esquecem, não se esquecem.

sábado, 8 de agosto de 2015

FU*

Suspiro. Vejo-me outra vez envolta numa mágoa que mói, que faz comichão e irrita.
Se uso a memória para que voltes e estejas presente, apetece-me sorrir porque te vejo. Esqueço-me por momentos que o passado não é o momento presente e sou feliz. 
Volta tudo muito depressa e de repente a ficha cai-me e tenho raiva. Raiva essa que, com o tempo e com o acto de respirar, é apaziguada. Não sou uma pessoa de guardar rancor. Sei que se aparecesses aqui agora que sorriria para ti, sei disso como sei o meu nome.
É curioso que nos agarremos a memórias mesmo depois de estas se começarem a desvanecer. É curioso que o sentimento ainda esteja presente mesmo que já não seja inteiro,mesmo que seja agora apenas uma sombra do que outrora foi. 
É uma sombra persistente esta. É-o porque é uma sombra que não sabe como ir embora. Então vai ficando e ficando e ficando...
Por vezes esqueço-me que ela continua aqui mesmo atrás de mim. Porém, sempre que olho para trás ali está ela, olho melhor e vejo que os contornos estão desvanecidos, olho melhor e ela própria já não sabe o que está ali a fazer. Olhamos uma para a outra e lágrimas caem dos nossos olhos. Estamos sozinhas. 

terça-feira, 14 de julho de 2015

Orgulho

Somos um povo triste.
Não é preciso ir longe para perceber isto. O Fado diz-nos muito. A nossa música diz-nos muito.
Ouvimos boa música portuguesa e percebemos que não temos boa música se esta não é triste.
Ouvimos vezes e vezes sem conta as nossas músicas preferidas portuguesas e de todas as vezes cresce uma tristeza em nós que é de tal significado que se torna uma tristeza cheia, uma tristeza que já faz tanto parte de nós que é bem-vinda.
A maior parte dos povos não entende isto. Não entende porque nos agarramos tanto às coisas menos boas da vida e fazemos música com elas. Somos, realmente, paradoxais. Pegamos em algo que de raiz devia ser algo alegre e tornamos-o melancólico, carrancudo, negro, pesado. No entanto, como nós fazemos poucos sabem fazer; tornar algo, apesar de pesado e triste, bonito, de tão cheio de verdade, de significado, de emoção, não é fácil. Agarramos em todos os nossos sentimenos menos bons, em todas as nossas emoções negativas e transformamos-as em músicas belas, tocantes, sinceras, cheias, sensíveis, com essência.
Esta é uma das razões porque amo ser portuguesa e sinto que não podia ser de outra nacionalidade qualquer.
Sinto que sou portuguesa dos pés à cabeça, e tenho orgulho nisso. Orgulho da tristeza incrustada na nossa alma mas ao mesmo tempo de uma esperança que nunca morre, de um sorriso genuíno, da lágrima que é também sempre tão genuína. Orgulho da maneira como vivemos, da nossa solidariedade e constante preocupação com tudo e todos. Orgulho de sabermo-nos desenrascar em qualquer situação mesmo que por vezes não tenhamos a mínima ideia do que estamos a fazer. Orgulho do amor que temos para dar que é sempre tanto apesar de em certas alturas escondido. Orgulho de sabermos respeitar os outros mesmo que nem sempre nos respeitemos a nós próprios. Orgulho, porque ser portuguesa para mim não é apenas viver em Portugal mas sim fazer parte de uma história e de um mundo que é muito nosso. É uma identificação partilhada, olhamos em volta, olhamos para as pequenas coisas e estamos em casa.