quinta-feira, 5 de março de 2015

"Plástica"


"Ontem disseram-me que eu era bonito e eu acreditei porque dava muito trabalho dizer o contrário. Além de que, ao dizer o contrário, poderia obrigar quem o afirmou a realçar-me a fealdade. Então resolvi simplificar as coisas e aceitar o elogio como se de uma verdade absoluta se tratasse. E depois fiquei bonito com aquela plástica na auto-estima… e fiquei tão bonito, tão belo e benemérito que decidi retribuir… e disse a quem me disse que quem me disse também o era… e quem me disse ficou tão contente que me fez desconfiar.
Será que quem me disse disse-me o que me disse para eu lhe dizer a seguir? E fiquei logo mais feio, entortou-se-me o nariz, tornou-se mais amarelo o branco dos olhos… e até um dente que tenho nos fundos amareleceu com a ausência de siso e ficou podre… e eu também.
Então encostei quem me disse contra a parede, literalmente, mas como era um muro reformulo a expressão: e encostei-o contra o muro, literalmente. E quem me disse disse que sim, que era a melhor maneira, que não teríamos que ir a uma clínica.
E foi então que percebi. E passámos três meses a dizermos da beleza um do outro e, no fim, estávamos tão belos, tão cheios, tão redondos com aquela silicone emocional e com a cabeça tão leve que começámos a voar. E demos quatro ou cinco voltas ao mundo sem outros motivos de conversa a não ser de dizermos um ao outro e outro ao um que éramos mesmo muito bonitos.
Mas as pessoas lá de baixo, as pessoas pequeninas, porque eram pessoas de ver ao longe e porque eram pequeninas começaram a lembrar-nos das imperfeições com megafones pendurados nos arranha-céus, como quem lhes lava os vidros mesmo quando não se distinguem da transparência do ar.
E esses lavadores de vidros anões fizeram pairar o nosso voo, e em seguida parar o nosso voo, e agora estávamos feios e a cair de encontro ao chão, e íamos mesmo para morrer mas, de repente, um de nós lembra-se e diz ao outro:
­- Tu tens um bom coração.
E o que ouviu não entendeu como uma análise clínica, mas como uma constatação da bondade de quem voa ao nosso lado. E o de bom coração respondeu:
- Tu tens bom aspecto.
Mas não chegou porque o aspecto nunca chega, às vezes pode parecer que chega mas nunca chega.
E o do bom coração voou de novo e deu mais catorze voltas ao mundo antes de morrer de velho. E o do bom aspecto morreu mesmo ali, quando lhe disseram que o tinha, parou-lhe o coração com o susto porque não era bom."
luto lento - João Negreiros

"Há espaço para mim no cume"


"Se escalasses o maior pico da maior montanha serias capaz de parar três metros antes e voltar para o quentinho?
Se fosses à Lua preferias ficar dentro da cápsula espacial a ver desenhos animados ou a jogar paciências sem gravidade?
Se fosses campeão do Mundo preferias ser do Mundo todo ou abdicavas de parte dele só para deixar países de fora da tua excelência?
Se estivesses quase quase, eras capaz de dizer “pronto, pronto”?
Se estivesses quase a chegar eras capaz de dizer “pronto, já chega”?
Se fosses mesmo crente numa coisa serias só crente na intempérie, na borrasca, na adversidade, na procela, no desespero?
Não eras capaz de crer também no céu mais claro a cheirar a terra molhada, no chá para a garganta roufenha, no sorriso e na vitória?
Ganhar é desconfortável? Faz-te comichão? Dá-te vontade de voltar para o quentinho e de não espetar a bandeira no cume mais improvável?
Ganhar abre o problema da habituação. Se começas a ganhar e a vencer, que é a mesma coisa, tornas-te repetitivo e depois não sabes fazer outra coisa. E vais ter menos coisas em comum com quem perde.
Queres um comprimido? Queres um xanax para te acalmar esse punho no ar a brandir vitórias? Queres um cobertor? Um programa de sábado à noite gravado para não pensares mais nisso? Queres um cérebro de um babuíno para não veres mais do que um banana?
Ó pá! Deixa-te de merdas e ganha! Ganha agora, ganha depois, ganha ontem, ganha sempre.
E se perderes… ganha. E se te custar ganha. E se não gostarem de ti ganha. E se gostarem ganha. E se continuarem a gostar ganha. E se te admirarem ganha. E se te desprezarem ganha. E se fores feio ganha pela beleza. E se fores bonito ganha para ficares feio, e a cheirar mal e cheio de inimigos, mas vencedor como aquele que faz o seu destino ao mesmo tempo que faz o resto.
Ganha até que não saibas nada para além disso. Ganha até que não seja ganhar. Ganha até que seja andar, respirar ou outra coisa tão real como estar.
E quando te disserem o que quer que seja tu responderás o que for porque a vitória não tem significado, é apenas aquilo para que te levantas todos os dias.
E se o sucesso for menos interessante e enigmático que o falhanço e a tristeza, tens razão. O sucesso é um sítio simples como tudo o que se percebe… e tu só percebes isto: ganha sempre até que a vitória seja o início."

As saudades que eu tinha do João Negreiros!

domingo, 15 de fevereiro de 2015

O amor é isto

Somos novas e no entanto já sentimos uma idade que não temos. Já passou algum (demasiado) tempo desde a nossa última saída.

Pegamos no nosso amor de amigas e decidimos ir passear; almoçamos, passeamos, falamos, vamos ao cinema...
Decidimos que não queremos que o tempo ou o cansaço ou a preguiça se apoderem de nós, decidimos ir sair para dançar e ver pessoas (homens) e ter a vida que em tempos tivemos e agora já não temos.

Vamos e a noite ficou aquém do que queríamos dela. A música veio tarde e não surpreendeu, os homens não se deslumbraram connosco, nós não nos deslumbramos com eles... A única coisa que não desiludiu foi o álcool, esse está sempre lá para o que der e vier.

No fim parece que nos demos a tanto trabalho para nada no entanto, o que fica na memória é aquele momento de euforia quando finalmente decidimos dar um passo em direcção ao desconhecido.
 Há sempre um risco inerente, nem sempre resulta como queremos. Porém, aquele momento em que só nos temos a nós e o destino, aquele momento de riso e gargalhada, aqueles momentos em que somos simplesmente nós à procura de algo mais que encaixe na nossa realidade, são momentos pelos quais vale a pena viver. Mesmo que nunca haja mais nada, mesmo que todas as noites acabem como aquela acabou, não faz mal, sabes porquê? Porque temo-nos uma à outra e isso para mim é insubstituível e sem preço.

Amor pode ser tanta coisa e quando dizemos que ele não faz parte das nossas vidas, enganamo-nos pois se realmente ele não tivesse presente numa ou noutra parte de nós, já não estaríamos vivas.
Nós ainda estamos vivas.
Vais ver que um dia tudo fará sentido porque quando olhamos para a nossa amizade já faz.

domingo, 18 de janeiro de 2015

O teu olhar


Lembro-me de ti. Eras mais magro, não tinhas barba, o teu estilo era diferente... mas o teu olhar...o teu olhar é igual. Profundo e carinhoso.

Vejo-te do outro lado da rua e duvido que sejas mesmo tu, fico a olhar à espera de que algo na tua postura me diga que estou errada.
 Vês-me deste lado da rua, os nossos olhares cruzam-se e sorrimos ao mesmo tempo um para o outro. És mesmo tu.
O tempo passou para ambos e quase que não nos reconhecemos. Os sorrisos esses são os mesmos e levam-nos a um passado que de tão longínquo quase que já parece apenas um sonho.
Eu fico parada no passeio pois esqueci-me de como se anda, tu vens na minha direcção e, bolas, continuas giro.
- Não posso acreditar. - Disseste-me tu.
- Bem quase que não te reconheci. - Disse eu, querendo abraça-lo não sabendo bem porquê.
- Pois, também já não nos vemos há anos, desapareceste completamente do mapa. - Desapareci para que este tipo de coisas não voltassem a acontecer mas parece que não conseguimos fugir de certas coisas, pensei eu.
- É verdade, nunca mais vi ninguém daquele tempo. - Olhei para a estrada e comecei a pensar quantos anos exactamente é que tinham passado. 
- Oito anos, já passaram oito anos, é incrível como o tempo passa rápido. - Parecia que tinha lido os meus pensamentos.
- Sim passa a correr. Então e o que é que tens feito nestes últimos anos?- Questionei-lhe eu.
- Bem, mudei de emprego, de cidade, casei-me, posso dizer que está tudo completamente diferente.
- Casaste-te? - Tentei fazer um ar de contente mas saiu-me um esganar esquisito na pergunta.
- Sim, por acaso foi há pouco tempo, foi há 5 meses.
- Boa! - Agora pareceu entusiasmo a mais, ia achar que estava doida. - O que interessa é que és feliz.
- Sim estou muito feliz, estou numa boa altura da minha vida.
- Que bom, estou mesmo contente por ti. - E agora a frase foi sincera, olhei para ele e sabia que o meu olhar transbordava de um carinho que não sabia de onde vinha mas que era realmente genuíno.
Ele deve ter sentido esse carinho pois desviou o olhar e corou.
Quando se recompôs, perguntou-me como estava tudo comigo. Ainda estava meio abalada com a notícia do seu casamento portanto disse só que estava tudo bem sem adiantar grande coisa.
- Olha tenho pena que não possa ficar aqui mais tempo mas tenho de ir andando. - Disse eu já a fugir de toda esta situação.
- Sim eu também tenho de ir. Sabes gostei de te ver podíamos combinar um jantar para falarmos melhor o que é que tu achas? - Fiquei meio parva com esta pergunta e não sabia o que havia de responder.
- Ahh, ok acho que pode ser. 
- Amanhã?
- Amanhã?!
- Não?
- Ahh, bem acho que sim, a que horas?
- Lá para as oito? Encontramo-nos no centro e depois vemos a onde vamos jantar.
- Ok, então fica combinado, até amanhã. - Ele sorriu, chegou perto de mim e abraçou-me. 
O mundo pareceu dar uma volta de 180 graus e esqueci-me de tudo, esqueci-me que estava atrasada para uma reunião, esqueci-me que amanhã tinha já combinado um jantar com uma amiga e nem dei por ela mas começou a chover.
 Olhei para o céu e a única coisa que me vinha à cabeça era o quanto tinha tido saudades daquele abraço.


segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Brilho

Uma das coisas mais bonitas na vida é conhecer pessoas brilhantes: sorriso genuíno, conversa profunda, olhares carinhosos, toques que transportam calor e sentimento, gargalhadas contagiantes...
Quando conhecemos pessoas assim a vida fica mais leve, mais bonita, muito mais interessante.

Achei importante falar deste tipo de pessoas que engolem o nada e transformam-no em tudo. 
Por vezes estas pessoas fazem apenas parte da nossa vida por um instante, outras vezes por semanas ou meses. 
O que nos faz ser pessoas melhores e mais felizes é quando pessoas assim, brilhantes, fazem parte da nossa vida durante anos. Pessoas que se transformam em amigos, não a definição banal de amizade mas aquela que define a vida humana.

Sei que sou alguém com muita sorte, sei-o porque passei um fim-de-semana absolutamente incrível não só com velhos amigos mas com amigos não tão velhos que se tornaram a base da minha existência, que se tornaram família
Estas amizades de anos deixam-nos ser felizes, deixam-nos ser nós próprios, deixam-nos continuar a viver sem mágoas, sem rancores, sem mal-entendidos, sem stresses. Deixam-nos num estado de preenchimento interior que nos confirma que a vida é incrível e que apesar de tanta coisa inútil e sem sentido existem sempre pessoas no mundo que o tornam um lugar melhor para viver. Algumas dessas pessoas são vocês, amigos que já fazem parte de mim,amigos que são: um braço, uma perna, uma válvula, uma veia. Sem vocês, o sangue não corria da mesma maneira, o sangue estagnava, o sangue não era tão vivo. A vida era menos, muito menos, a vida era nada. 
Eu seria menos, seria pouco, muito pouco sem o brilho que vocês partilham de todas as vezes que sorriem, abraçam e estão presentes.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Multidões de nada


 Descobri este ano algo que me assustou: As pessoas, na sua maioria, cansam-me.
As suas confusões, os seus relacionamentos, os seus caprichos, as suas necessidades, as suas exigências, as suas dúvidas, tudo.
Canso-me com tudo isto.
Houve um tempo em que pensei que só precisava de mudar de rotina, só precisava de uma aventura, de viajar... Pensava que ao viajar sozinha tinha o tal descanso de pessoas que, por vezes, tanto precisava. Porém, não. Há mais tendência para falarem connosco quando viajamos sozinhas, as pessoas acham que quando as mulheres viajam sozinhas é porque precisam de ajuda ou de companhia ou dos dois. Pois posso dizer-vos que hoje em dia já existem muitas mulheres que estão tão bem com elas próprias que não precisam de ninguém para adicionar nada às suas vidas. Podem vir pessoas para ser um extra e vir dar ainda mais luz aos nossos caminhos mas não são uma luz ao fundo do túnel.
  Portanto devíamos parar um bocadinho para pensar na importância de não falar, de não evadir um espaço para o qual não se foi convidado a entrar.

Conhecer pessoas não é mau, o que é mau é chegar tantas vezes à conclusão do quanto desinteressantes muitas delas são.
A raça humana apesar de ter muitos seres simpáticos são tantos eles apenas mais um entre muitos, sem nada que os distinga. Um ponto preto no meio de milhões de pontos pretos, uma mancha num papel cheio de manchas, uma rocha numa montanha com centenas de rochas iguais, uma nuvem negra no céu carregado de chuva.

 Raros os momentos em que vemos uma linha em vez de um ponto, um desenho em vez de uma mancha, uma flor em vez de uma rocha, o sol em vez de uma nuvem. Raros.
 Quando acontecem trazem-te, instantaneamente, um sorriso à cara e um desejo profundo de que essa ilusão se prolongue. 
No entanto, mais tarde ou mais cedo descobrimos que somos todos iguais e que essa diferença só dura por um momento, momento esse prologado pela tua vontade de ver a diferença ou pela vontade de o outro de ser a diferença, ou ambas as coisas ao mesmo tempo.
Tocamos por breves momentos nessa energia que é ser alguém transcendente, sentimos o seu poder sobre nós e largamos a dita cuja, esperando que a energia não se esgote e que se junte à nossa por sua livre vontade. Que juntos criemos esse espaço que não existe e do qual sempre quisemos fazer parte.
Somos todos humanos mas os melhores de nós são aqueles que querem ser algo melhor, algo diferente, algo brilhante...

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Saudades de Ser

Antes escrever libertava. Tantas vezes a vida não fazia sentido e ao escrever parecia que tudo ficava mais fácil, menos complexo.
Agora escrever custa. Custa mais que muitas coisas complicadas. E não liberta; aprofunda e sufoca.
Sei que o que mudou não foi a escrita mas sim a visão, o toque, a amargura, a falta de esperança, a falta de tempo, o viver. Sei que vivi mais. Porém, a vida não teve grande significado. Tinha mais antes, em que as palavras tinham sentido, a dor era analisada, as histórias eram contadas. A escrita trazia-me algo de transcendente que aliviava-me, alegrava-me, sustentava-me. 
Agora não sei. Agora parece que as palavras não gostam de mim, não consigo ver para além do óbvio, escrever para além do básico. 
Por um lado parece que já escrevi tudo o que interessava. Como se não interessasse escrever mais nada. 
 E no entanto, tantas vezes olho para uma paisagem e apetece-me descrever todas aquelas cores, tantas vezes vejo sofrimento alheio e apetece-me arranjar palavras para o expressar, tantas vezes a vida traz-me surpresas e eu gostava de as passar para papel. Como se só assim houvesse uma confirmação que tudo aconteceu, que estive ali, que vi aquilo, que senti, que estou viva. No entanto, já não o faço. Penso nas palavras e perco-me.
Perdi-me sim quando parei de escrever, quando parei de analisar, quando parei de pensar. Não pensar, não escrever, tornou a minha vida um conjunto de acontecimentos ao acaso, sem qualquer sentido ou significado. Não estou arrependida, vivi outras coisas, mas não é aquilo que quero ser, não sou essa pessoa.
Quero voltar a escrever, quero voltar a ter aquela inspiração que me fazia ser mais quando não havia nada na vida exterior. Quero voltar a saber expressar o vazio. Sabendo agora que o nada tem muito mais para dizer que o tudo. O tempo faz falta, ter tempo faz falta, sofre-se mais mas no fundo é-se mais. 
Tenho saudades de ser.